O que o FeliS Natal tem para nos dizer?

“De manhã cedo cheguei pra trabalhar, fazer o trabalho ali de cortar a grama e pensei: “Ah, quer saber de uma coisa? Vou escrever um Feliz Natal aqui”. Não pedi autorização pro prefeito nem nada. Mas quando já estava começando o “N” vi que a outra palavra estava com “S”. Aí passou alguém com má intenção, tirou uma foto e jogou na rede social. Um rapaz da padaria me perguntou se eu tinha feito aquilo. Nesse momento, era só crítica, gente tirando sarro. Quem me conhece, conhece meu trabalho, sabe que nunca me envolvi em confusão. Fui contar para minha mulher que estava na rede social pra cima e pra baixo. Depois vieram umas pessoas em minha defesa, pessoas boas que foram postando, postando…” Fonte: www
felis natal g1
Fonte: www

Meus pais sempre me disseram que as gerações “evoluem”: eles tiveram mais oportunidades que meus avós, eu estou tendo mais oportunidades que meus pais, meus futuros filhos terão mais oportunidades do que eu e assim por diante. Sempre, sempre, sempre, no caminho de uma espécie de evolução, social, econômica e intelectual. Eu compartilho desse pensamento, porque ele faz sentido: é tudo sobre criar mais oportunidades para nossos filhos. É tudo para torná-los melhores do que nós mesmos.

Com essa polêmica do Felis Natal, o pensamento mais recorrente em minha mente, toda vez que leio um post sobre nas redes sociais, é o seguinte: See, it’s easy to ignore trouble when you’re living in a bubble (“Veja, é fácil ignorar problemas quando você está vivendo em uma bolha”, em tradução livre). É um trecho de uma música do Paramore, Ain’t Fun, que me deixa triste e feliz ao mesmo tempo todas as vezes que a escuto, e é uma ótima música.

Então, eu poderia muito bem zoar esse homem que escreveu feliz com “s”. Da mesma forma, alguém que fez cursinho de inglês desde a infância poderia achar ridículo eu não saber a diferença entre “when” (quando) e “where” (onde) até este ano. Mas e aí? Só porque você teve oportunidades desde sempre, quem não as teve deveria, obrigatoriamente, se virar para chegar ao mesmo lugar que você, mesmo que fosse infinitamente mais difícil e frustrante? E se não o fizesse, seria uma pessoa que simplesmente não se esforça e por isso não obtém sucesso? Se pensarmos assim, caímos na falha ideia da meritocracia. Mas não me entenda mal, afinal, tenho amigos que tem menos condições ainda do que eu e aprenderam inglês sozinhos, por exemplo. Então eu, obrigatoriamente, não aprendi outro idioma apenas porque sou preguiçosa? Se você pensa isso, quer dizer que todos nascemos sendo autodidatas? Pois eu digo que não. E realmente a resposta é não. EU sou do tipo de pessoa que precisa de um professor em certos assuntos e áreas, caso contrário, não aprendo de jeito nenhum.

Eu tenho minhas dificuldades. Eu tenho minhas limitações. Eu quero que os outros as entendam e respeitem, por isso, os trato da mesma forma, com o mesmo respeito, ou ao menos tento, na maior parte do tempo. Um exercício bom para forçar a empatia é o seguinte: todas as vezes que você pensar em rir de alguém com dificuldades em algo que você acha muito simples, quero que pense em suas próprias vulnerabilidades e o quão desesperador é quando os outros riem delas. Por mais que tendamos a nos tornarmos praticantes de bullying para aliviar nossas próprias angústias, para descontar quando aqueles que nos machucam riem de nós, essa não é uma boa saída. Não é uma boa saída porque você se torna, mesmo que por um instante, igual aos que te machucaram, mas com um alvo diferente, e só. Você se torna uma cópia de quem te feriu e busca autoestima na baixa autoestima que tenta infringir ao outro. Me diz, ler isso dói?

Agora, se você não consegue pensar em nenhuma dificuldade que você mesmo tenha na vida, se você acha que tem, por isso, a liberdade de julgar os outros e rir deles, se você se sente tão inteligente e superior assim, você tem a pior das vulnerabilidades: o excesso de ego, também chamado de egocentrismo. Incapaz de enxergar suas próprias falhas e defeitos, com um sentimento muito forte de que é o supremo dono da razão e detentor de toda a sabedoria do universo, você é vulnerável justamente por não perceber o quão egoísta é. E, o simples fato de te forçarem a perceber isso, algum dia, faria seu mundo desabar. Envolto num manto de superioridade, você é invencível. Eu sou menos, seus pais são menos, todos são menos do que você. Você pode julgar todos eles. Mas será que aguenta um julgamento?

Se ler isso fez seu coração doer, ou te fez me chamar de idiota mentalmente, está na hora de repensar alguns de seus conceitos. Ainda assim, se você é um egocêntrico e conseguiu chegar ao fim desse texto, eu te parabenizo. É sério. Você teve coragem de ler uma verdade indireta. Talvez você mude. Talvez essa leitura seja o primeiro passo para descer do seu pedestal e enxergar a beleza que nós, meros mortais, vemos em um Felis Natal, incorreto gramaticalmente, mas dado de coração. E as coisas dadas de coração, meus amigos, elas não têm preço.

comunicado prefeitura Felis Natal

Espero que todos sejam capazes de entender isso, algum dia. Então, assim como a prefeitura de sua cidade, Seu Lindomar, eu te parabenizo pela boa vontade, pelo gesto de carinho para com o local onde você vive. É uma pena que o senhor não tenha tido maiores oportunidades de estudo, afinal, pessoas com bom coração fazem falta no mercado de trabalho e nas universidades. Que o seu filho alcance todo o sucesso, e voe tudo o que o senhor poderia ter voado se mais oportunidades lhe tivessem sido dadas!

Gratidão.

Escrevo para curar

Bizarro é
Toda a vez
Que alguém me pergunta
Se o que escrevi
É uma indireta

Pensei que estivesse claro
Que só podemos escrever
Sobre o que sentimos
Mas
As minhas palavras
Não são facas
Com a intenção
De cortar sua alma

As minhas palavras
São curativos
Para meu próprio coração
Que culpa eu tenho
Da sua própria consciência
De que o feriu?

Se você espera
Que eu sufoque
Com tantas palavras
Guardadas em meu peito
É melhor desistir

Sempre irei escrever
E toda a vez
Compartilhar
Porque meu coração sorri
Ao saber
Que outras pessoas
Terão acesso
Aos meus band-aids
Também

Eu estou compartilhando a (minha) cura.

E-mail anônimo: a dor é a cura

Um anônimo, que se denominou “.” (isso mesmo, um ponto), escreveu o texto a seguir para mim em 31 de março, e me enviou por e-mail aqui pela página de contato do blog. Acontece que ele/ela (eu não faço ideia) não deixou um e-mail de verdade para resposta, e o texto dele/dela é um ótimo texto. Não tenho escolha a não ser responder em um post, mesmo que um bom tempo já tenha se passado.
Não gosto de deixar as pessoas sem resposta, mesmo que muitas vezes eu as deixe esperando. É uma pena e eu sinto muito por isso, mas ninguém é perfeito.
Segue o texto anônimo:

O desconhecido é apenas uma etapa, após você saber o nome de alguém e sentir seu olhar. Aquela pessoa não será mais alguém desconhecida, após sentir o cheiro e o clima de um lugar, logo não será algo desconhecido. Por que escrevo isso? Se eu lhe dizer o motivo, talvez não serei mais o “.” desconhecido para você. O mistério, o segredo, a falta de conhecimento sobre uma sociedade “secreta”, o desconhecido faz o medo do ser humano aflorar. Esse medo, o “pré conceito” sobre algo, nos trouxe longe, nos trouxe ao topo da pirâmide de sobrevivência do planeta Terra. Sempre julgando animais com aspectos “perigosos” de forma fatal. O medo faz a natureza do ser humano aflorar, ter medo é a natureza do ser humano! E no medo, matamos tudo aquilo que é desconhecido. Inclusive matamos as pessoas boas que são desconhecidas apenas por pré conceitos físicos e externos. Deve se perguntar novamente, quem sou? Por que lhe escrevo? O que quero dizer com tudo isso? Não sei, me diga você, o que sua mente faz você pensar sobre as palavras de um desconhecido? Talvez eu nem seja mais um desconhecido, talvez agora eu seja uma parte de seu consciente. Já criastes tantas teorias e ideias de quem sou e por que escrevo isso que até lhe torno familiar. Enquanto procuramos a cura para a dor, deixamos para trás de forma despercebida que a dor já é a cura. E a cura que tanto procuramos, é a dor que não queremos passar…a dor é a própria cura

Caro “.”, desculpe a demora em responder, se é que você esperava uma resposta. Você esperava? Ora, depois de fazer tantas perguntas e suposições sobre mim, sou levada a acreditar que sim. Bem, na verdade, não fiquei me questionando sobre quem você é ou por que me escreveu. Vivi poucos anos, mas tempo o suficiente para saber que boa parte das minhas teorias sobre o desconhecido sempre se mostrarão errôneas no futuro. Então, parei de formulá-las, ao menos conscientemente. E quanto ao meu inconsciente? Bem, quem sabe o que vive por lá?
Eu gostei do seu estilo de escrita. Parece com algo que eu mesma escreveria. Parecem as mesmas indagações que eu tenho. Espero que não ande me espionando, de verdade, rs. Afinal, caso não seja uma espécie de espião, é sempre um prazer dialogar com alguma alma que me entenda um pouco. O medo, os preconceitos… Ninguém é imune a nada disso e, todos os dias, eu tento ser. Mas, se baixo a guarda por um instante, posso acabar fazendo algo errado, e certas vezes eu faço. Não me orgulho disso, mas faço.
Tenho que lhe elogiar especialmente pelas frases finais de seu e-mail: “Enquanto procuramos a cura para a dor, deixamos para trás de forma despercebida que a dor já é a cura. E a cura que tanto procuramos, é a dor que não queremos passar…” Eu poderia imprimir essa frase em um belíssimo pôster e deixá-la no meu quarto, sério. Então, meu caro “.”, eu não faço ideia do por que você resolveu me escrever em 31 de março de 2018, às 00h46min da madrugada. Você costuma ir dormir tarde? Bem, não faço ideia de nada a seu respeito mesmo. Mas fico feliz e tenho que lhe agradecer, especialmente por essa frase que trata sobre a dor ser a própria cura. É uma frase muito verdadeira e um tanto difícil de aceitar, sobre algo que eu mesma já havia pensado anteriormente, mas jamais havia sido capaz de colocar em palavras como você fez. Então, obrigada.
E mesmo não te conhecendo, não acho que seja total um desconhecido. Não depois desse texto, não depois dessa frase. Mas também não acho que tu sejas agora uma parte do meu consciente… É alguém do lado de fora, que não conheço. Ora, as suas ideias estão no meu consciente agora, não você. Mas, ao mesmo tempo, nossas ideias são uma grande parte daquilo que somos, então, acho que você não é um total desconhecido para mim, afinal. Não desde 31 de março.

Se quiser outra resposta, anônimo, precisarei que me envie um endereço de e-mail real. Não estenderei esta conversa em outras postagens daqui.